domingo, 30 de abril de 2017

A bicicleta que tinha bigodes- Ondijak


(...) a bicicleta do meu sonho era bem grande  zunia muito, amarela nas rodas, o quadro e o volante eram vermelhos e os para-lamas assim pretos, só que à frente, um pouco abaixo da zona do volante, ninguém ainda tinha visto: a bicicleta tinha uns bigodes iguais aos do tio Rui...


Este livro é um exemplo de solidariedade e empatia. A narrativa é em torno de um concurso literário promovido pela Rádio Nacional de Angola, em que o vencedor leva para casa uma bicicleta, basta escrever a melhor história. Para a sorte do nosso personagem narrador, ali no bairro mora um escritor que tinha muitas ideias para criar belas histórias, tantas que sobravam algumas que caiam pelo seu bigode e eram guardadas em uma caixa mágica.

A ideia era simples, pegar a caixa, usar algumas palavras, enfeitá-las e assim criar a história  vencedora.
Nosso narrador, que não tem nome, sonhava em ganhar uma  bicicleta colorida e de bigodes parecidos com o bigode do contador de histórias da rua, mas não seria só dele, emprestaria aos amigos Isaura e JorgeTemCalma sem cobrar nada em troca.

É uma narrativa permeada de referências à infância: fantasias, descobertas, amigos, brincadeiras e contação de história. Além disso, o leitor fica sabendo da instabilidade política de Angola, da prisão de Nelson Mandela na África do Sul e das condições precárias da população ( falta d'água, racionamento  de energia e até de comida) por meio do olhar de uma criança.

As ações acontecem em 2 ou 3 dias, em que as noites são fundamentais, pois é quando tudo acontece, percebemos isso logo no início do livro em que o autor nos diz tratar-se de "estórias sem luz elétrica".
A falta de energia elétrica permitia os encontros das crianças e adultos. Enquanto as crianças brincavam, realizavam planos mirabolantes na rua, os adultos conversavam, já que não podiam assistir a novela, pelas referências, na época assistiam Roque Santeiro (novela brasileira veiculada em Angola).

As personagens são bem características:


  • o narrador que mesmo não tendo nome, identificamos um menino com muita imaginação e solidário  que busca realizar seus sonhos, no início, de maneira desonesta, dentro da ideia que os fins justificam os meios, mas que no final, decide ser o mais honesto possível e é bem empático em relação às crianças, não só do bairro, mas do país.
  • A menina Isaura, que amava os bichos seja gato, cachorro, lesma, vaga-lumes  ou sapo. Dava-lhes nomes inusitados de personalidades históricas.
  • O JorgeTemCalma, não tinha calma nenhuma, sempre com o pensamento atropelado pela fala que saia com muita pressa e viviam dizendo: "Jorge tenha Calma!"
  • A avó do nosso personagem chama-se AvóDezanove, senhora bondosa e sempre repetindo sua rotina, mesmo sem ter água, todos os dias ensaiava dar água às plantas. Não ficamos sabendo o porquê ela é conhecida por esse nome, mas se seguir a lógica do senhor chamado Motorista nove, que logo no início muda de nome para Motorista Dez, faz todo o sentido, quem sabe ela seja conhecida assim por ter 19 netos. ( só imaginação de leitor);
  • O amigo simpático e sempre com pressa, tio Rui ( escritor/ contador de histórias);
  • O Camaradamudo- senhor que fala pouco, mas tudo vê,  pois sempre está sentado em um banco na esquina da rua;
  • O Generaldorminhoco - aquele que dorme muito e é o privilegiado da rua, pois possui até gerador para os momentos de corte de energia elétrica.

O livro lembra outros livros do autor, Bom dia camaradas, obra permeada  de alusões ao período angolano pós guerra, ainda em meio ao caos e reconstrução. O leitor também fica sabendo de problemas políticos e sociais por meio do olhar de uma criança que narra seu dia- a- dia.

E  Uma escuridão Bonita,  em que a falta de luz elétrica dá  um sentido à história, assim como em A bicicleta que tinha bigodes, também vem com o subtítulo "estórias sem luz elétrica"e os acontecimentos são descritos de forma que a escuridão fique bonita, saudosa e poética.

São três obras em que podemos notar o lirismo em prosa, crianças como personagens e a ideia de que a narrativa  é composta por lembranças da infância do próprio autor.

Voltando ao Concurso Cultural da Rádio Nacional de Angola
E nosso menino narrador ???
Será que ele consegue escrever uma história  tão boa que mereça ganhar a sonhada bicicleta que tinha bigodes?
O final do livro revela as boas intenções do narrador que buscava uma história vencedora, que não posso contar, mas adianto que a leitura nos faz sentir que viver histórias, talvez seja até mais importante do que o prêmio que ele tanto desejava ou mais importante do que saber contá-las.



A Bicicleta que tinha bigodes – Ondjaki

Editora Pallas
Ano: 2012 / Páginas: 96 - Literatura infantojuvenil angolana





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